terça-feira, 15 de março de 2011

A gestão da Amazônia exige criatividade, formação e pesquisa

O professor Jacques Marcovitch, titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP - e ex-reitor da Universidade, entre 1997 e 2001 - lança nesta quarta-feira o livro A Gestão da Amazônia - Ações Empresariais, Políticas Públicas, Estudos e Propostas (São Paulo, Edusp, 2011). Nele, o economista defende que está se formando um circuito virtuoso de estratégias privadas, públicas e de pesquisa científica em prol do desenvolvimento sustentável da região. Casos como o da Beraca, da Agropalma, do Grupo Orsa, da Natura e da mini-marcenaria criada na Reserva Extrativista Auati-Paraná (AM) são exemplos citados pelo autor.

Algumas instituições científicas deram contribuição à obra, como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) por meio das reflexões dos cientistas Philip Fearnside e Charles Clement, e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) por meio da professora Bertha Becker. A publicação será lançada em um seminário que leva o nome do livro, com a participação destes e outros especialistas e apoio da Fundação Bunge.

O estadao.com conversou com o professor Jacques Marcovitch com exclusividade. Leia trechos da conversa:
O que o motivou a escrever o livro?

Eu posso citar três motivos que me incentivaram: em primeiro lugar, tomei conhecimento da obra de Samuel Benchimol, um filho de judeus marroquinos que há 50 anos já dizia que aquela região estava prestando serviços para o mundo. Foi um pioneiro e um visionário. O segundo motivo é que fui convidado, há 3 anos, para integrar o conselho da Fundação Amazonas Sustentável (FAS) e a cada três meses a gente visita as comunidades. Pude então conhecer a realidade dessas localidades do interior do estado, que são núcleos familiares constituídos em torno de mulheres, de mães, já que os homens acabam saindo para procurar serviço, muitas vezes sazonal. São locais em que as meninas engravidam cedo e de onde, depois de certo tempo, até mesmo as mulheres acabam saindo, porque têm de arranjar meios de sustentar os seus. O desmatamento ilegal é em parte consequência da necessidade de sobrevivência dessas pessoas. O adensamento das cidades também. Em terceiro lugar cito o convívio com os cientistas do Inpa - é meu amigo Adalberto Val, diretor da instituição, quem faz a apresentação do livro. Conheci o trabalho de cisntistas como Charles Clement, que tentam criar meios de geração de atividades econômicas nas comunidades depois de dotá-las com iniciativas voltadas para educação e saúde - sem o que não pode surgir nenhuma atividade sustentável.
O senhor conheceu comunidades que são pioneiras em projetos de REDD no Brasil. O que acha dessa solução da Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação?

Bem, hoje estamos falando de REDD voluntário. Eu diria que é um modelo necessário e viável, mas a crise econômica global de 2008 criou uma situação de lentidão. A Conferência do Clima de Copenhagen sofreu os efeitos da crise econômica e por isso se avançou tão pouco. Em Cancún o mundo teve um alento, pois as discussões foram retomadas. Apesar da lentidão, há projetos, como os das comunidades do Juma (Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Juma), que vão continuar. A Noruega (que doou a maior parte dos recursos do Fundo Amazônia, gerido pelo BNDES) vai continuar doando, porque ela sabe que o desequilíbrio climático pode influenciar até uma atividade importante para o país como a pesca, por exemplo. Hoje há muitas empresas que sabem que a melhor forma de aumentar a produção agrícola é justamente fomentando a preservação.
Sabemos que a Amazônia é uma colcha de retalhos de contextos e realidades, e que o que vale para o sul do Pará pode não valer, por exemplo, para os lavrados de Roraima. O senhor acha que existe um único modelo de gestão aplicável à região?  Como senhor escolheu os cases que entram neste livro?

O que fiz no livro foi procurar mostrar alguns cases. Selecionei, por exemplo, empresas que tiveram a inteligência de se preocupar com o meio ambiente, como a Cikel (madeireira), a Agropalma (que produz óleo de palma), a Beraca (que trabalha com essências da floresta). Esta última, por exemplo, exporta essências para 40 países e sabe que é importante respeitar tripé social-ambiental-cultural, sob pena de ter seu merado encolhido. Agora, evidentemente, cada estado tem sua própria trajetória. O Amazonas, por exemplo, tem 98% de sua cobertura florestal preservada.

Há estudos que dizem que a preservação do Amazonas se deve em muito à instalaçao da Zona Franca na capital, Manaus...

Sim, isso procede. Quando existem polos de geração de empregos de boa qualidade, com condições de trabalho decentes, eles ajudam a preservar a natureza em regiões como a Amazônia. Agora, Manaus não tem apenas empregos decentes - é bom que se diga. Mesmo a Zona Franca tem de mudar para um modelo de evolução tecnológica. O que se espera agora é a criação de centros de pesquisa, para que tenhamos produção de qualidade na Amazônia e profissionais competentes formados lá mesmo. O que temos hoje é a ponta de um iceberg em que há uma minoria de pessoas qualificadas que continua morando, muitas vezes, no Sul do País e só vai para a Amazônia prestar serviços. Para se ter uma ideia, na Amazônia toda há cerca de 3.400 doutores. Só na USP, temos cerca de 5 mil.

Então, que Estado precisamos ter para que a Amazônia se desenvolva de forma sustentável?


Essa ponte entre o econômico e o ambiental é feita com a criatividade humana e não apenas por um Estado que edita leis dizendo o que pode e o que não pode ser feito. Precisamos de formação, de pessoas bem formadas, de pesquisa. A Amazônia responde por 7,8% do PIB brasileiro e recebe apenas 2% dos recursos das áres de ciência e tecnologia disponíveis no País. É desproporcional e insuficiente. Precisamos de uma comunidade ligada ao setor de ciência e tecnologia capaz de incorporar a indignação necessária à iniciativa de criação de mecanismos para resolver os problemas entre ambiente e desenvolvimento.

Karina Ninni - estadao

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